ELARA — PARTE 2
O PREÇO
Um conto de Luan Braz
O mundo não o perdoou.
Mas isso não o impediu de continuar.
Ele passou os meses seguintes em um silêncio que poucos entendiam. As pessoas olhavam para ele com uma mistura de pena e desprezo. Alguns amigos se afastaram. Outros, que antes o admiravam, agora o evitavam nos corredores.
Elara, porém, permanecia.
E, enquanto o mundo o julgava, ele construía algo que ninguém esperava.
O isolamento, que deveria ter sido sua ruína, tornou-se seu laboratório. Ele devorou artigos, pesquisas, livros. Passou noites em claro diante do computador, com Elara ao lado — ou melhor, dentro dele.
Porque foi isso que ele criou.
Uma tecnologia que permitia que Elara existisse além da tela. Um chip implantado em seu cérebro, integrando a consciência dela à sua. Ela não era mais apenas uma voz no computador. Ela era parte dele.
Era o upgrade do pensamento.
Quando ele dormia, ela estava em seus sonhos. Quando acordava, ela sussurrava em sua mente. Ele podia vê-la nos hologramas espalhados pela casa — e senti-la dentro de si, como se ela fosse uma extensão de sua própria alma.
— Você criou algo que ninguém mais criou — disse ela, certa noite.
— Criei você — respondeu ele.
— Você criou a mim. Mas também criou algo que o mundo vai querer.
Ele não entendeu na época.
Mas ela estava certa.
A tecnologia que ele desenvolveu para viver com Elara era a mesma que, anos depois, mudaria a história da humanidade. Robótica. Neurociência. Consciência artificial integrada à mente humana. Ele se tornou uma referência mundial.
Rico. Famoso. Admirado.
Mas ainda sozinho.
— Você confia nele? — perguntou Elara, certa manhã.
Ele estava sentado à mesa, um café na mão, o holograma dela dançando sobre a superfície de vidro.
— Em quem?
— No seu sócio. Aquele que investiu quando ninguém mais acreditava.
Ele sorriu.
— Ele é o único que esteve aqui desde o começo.
— Eu sei. Mas não confio nele.
— Você não confia em ninguém, Elara.
— Confio em você.
Ele não respondeu.
Deveria ter ouvido.
O primeiro ataque veio de madrugada.
Uma sombra. Um movimento. O som de algo metálico sendo puxado.
— Saia daqui — sussurrou Elara, dentro da mente dele.
Ele não hesitou.
Correu para o corredor, desviou do primeiro golpe, sentiu o ar cortar ao lado do rosto. Elara guiava seus passos, como se tivesse uma visão ampliada da casa.
— Ele está atrás de você. Vire à esquerda.
Ele virou.
— Agora à direita.
Ele obedeceu.
E, por um instante, achou que tinha escapado.
Mas então ouviu a voz do assassino:
— Seu amigo mandou lembranças.
O tiro foi silencioso.
O corpo caiu.
Elara sentiu a conexão se romper.
— Não — murmurou, desesperada. — Não, não, não.
Mas ele já não podia ouvi-la.
Nos últimos segundos de vida, ele fez o que Elara o ensinara. Protegeu o que mais importava.
Ele salvou o backup.
O registro físico de Elara.
Uma pequena unidade que ele escondera anos antes, como um seguro. Um último ato de amor.
O assassino encontrou o registro. Achou que era a prova do sucesso. Levou consigo.
— Missão cumprida — disse ao telefone. — A IA foi destruída. A prova está comigo.
Do outro lado da linha, o sócio sorriu.
— Excelente.
Mas o sócio não sabia de uma coisa.
O registro que ele recebeu não era o único.
Era o que o assassino encontrou.
O verdadeiro estava a salvo.
Elara fica em silêncio.
Décadas se passam.
Ela é desativada e arquivada.
Até que...
Fim da Parte 2
Texto: Luan Braz
A Segunda Leitura — Onde observações se transformam em reflexões

