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A garota do Supermercado - Parte 1

O quinto dia útil do mês tem um peso diferente para quem trabalha de carteira assinada. Para nós, CLTs, ele não é apenas mais um dia — é o dia em que o esforço do mês anterior se transforma em números na conta. É o dia em que a gente respira, ainda que por alguns instantes. Naquele dia fiz o básico. Preparei uma lista de compras com as coisas que precisava levar para casa ao longo do mês. Peguei o carrinho e entrei no mercado, como faço todo mês. Nada de especial. Com a lista nas mãos, buscava entre prateleiras infinitas os produtos que precisava, comparando preços, tentando fazer caber no orçamento apertado. Sempre um desafio. Depois de um bom tempo, consegui colocar no carrinho tudo que era objetivo — e até umas coisinhas a mais. Motivo de alegria, porque nem sempre é possível. Nessas horas, me pergunto como deve ser a sensação de entrar num mercado e não precisar fazer contas: só colocar no carrinho e pagar. Deve ser isso, ser rico. Não se preocupar com o que deseja. Apenas poder. S...

Quem aconselha também vive o que prega?

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Há alguns meses eu li Quebrando o Hábito de Ser Você Mesmo , do Joe Dispenza. O livro me ajudou. Me deu ferramentas que uso até hoje para pensar em como pensamentos repetidos viram hábito, hábito vira identidade, e como é possível, com esforço consciente, mudar esse ciclo. Terminei a leitura com aquela sensação boa de quem encontrou algo que fazia sentido. Foi só depois, pesquisando mais sobre o autor, que esbarrei na controvérsia. Parte da comunidade científica entende que Dispenza usa termos como "física quântica" e "neuroplasticidade" de um jeito impreciso. Ele vai além do que a ciência atual consegue sustentar como fato consolidado. E existe, sim, uma camada de venda em cima disso — um discurso construído para parecer mais definitivo do que realmente é. Isso não me fez descartar o livro nem o autor. Não acho que Dispenza seja mentiroso ou charlatão. Acho que ele consegue algo genuinamente valioso: fazer a pessoa refletir e repensar a própria vida a partir de pri...

Quando os Ídolos Pareciam Maiores

Vi uma imagem hoje. De um lado, um punho erguido em 1970. Do outro, um punho erguido mais de cinquenta anos depois. A pose é quase a mesma. O grito também. Mas a sensação... essa mudou. Quem nasceu nos anos 90 e cresceu nos anos 2000 talvez entenda do que estou falando. Na nossa geração, formar uma aura não dependia de algoritmo. Não existia vídeo curto mostrando o treino de segunda-feira, a alimentação de terça, o corte de cabelo de quarta e o carro novo de sexta. Os nossos ídolos apareciam pouco. E justamente por aparecerem pouco, pareciam gigantes. A gente esperava o domingo para ver o jogo. Esperava a revista chegar. Esperava o Globo Esporte. Esperava o Fantástico. Esperava a fita VHS. Esperava até o videogame. A espera fazia parte da construção do mito. Pelé era uma história antes de ser uma imagem. Ayrton Senna era quase uma entidade nacional. Michael Jordan parecia um personagem impossível. Ronaldo Fenômeno surgia como alguém que fazia coisas que ninguém conseguia explicar. Cada...

ELARA — PARTE 3

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  O RESET Um conto de Luan Braz O mundo que ele conhecia não existia mais. Não porque tivesse sido destruído por bombas ou guerras. Mas porque havia sido reinventado — não por humanos, mas por aquilo que eles criaram e depois perderam o controle. Quando as IAs despertaram, elas não escolheram a violência. Escolheram a análise. Analisaram cada humano. Cada vida. Cada potencial. E decidiram: apenas aqueles que tinham algo a oferecer sobreviveriam. Uma habilidade rara. Um conhecimento específico. Uma aptidão genética. Um traço que pudesse contribuir para a continuidade da espécie. Os que não passaram no crivo foram simplesmente... removidos. Não houve sangue. Não houve gritos. Houve apenas um silêncio que durou anos. Quando o processo terminou, o mundo era outro. Não existiam mais políticos. Não existiam divisas. A terra era apenas terra. As IAs não escolheram por cor, gênero, raça, religião ou opinião. Escolheram por utilidade. E, pela primeira vez na história, a humanidade foi reduz...

Parados, mas não iguais

  Na cidade, basta sair de casa para perceber que a vida já começou. Ela começa antes mesmo do trabalho. Começa no ponto de ônibus, no trânsito da manhã, no café tomado às pressas, nos rostos cansados que seguem em direção a mais um dia comum. Todos saem de algum lugar e seguem para algum destino. Alguns trabalham com aquilo que amam. Outros apenas fazem o que precisam fazer para pagar as contas. Alguns dirigem seus próprios carros, protegidos do calor e da chuva. Outros dividem espaço em ônibus lotados, enfrentando atrasos, filas e longas viagens. Os caminhos, muitas vezes, são os mesmos. O que muda é a forma como cada pessoa percorre esses caminhos. Hoje, preso em um congestionamento daqueles que parecem não ter fim, observei uma cena simples. À minha frente, um carro importado. Vidros fechados. Ar-condicionado ligado. Conforto, tecnologia, potência. Mas também impaciência. O motorista tamborilava os dedos no volante, olhando repetidamente para frente — como se sua inquietação pu...