Quando os Ídolos Pareciam Maiores

Vi uma imagem hoje.

De um lado, um punho erguido em 1970. Do outro, um punho erguido mais de cinquenta anos depois. A pose é quase a mesma. O grito também. Mas a sensação... essa mudou.

Quem nasceu nos anos 90 e cresceu nos anos 2000 talvez entenda do que estou falando.

Na nossa geração, formar uma aura não dependia de algoritmo. Não existia vídeo curto mostrando o treino de segunda-feira, a alimentação de terça, o corte de cabelo de quarta e o carro novo de sexta.

Os nossos ídolos apareciam pouco. E justamente por aparecerem pouco, pareciam gigantes.

A gente esperava o domingo para ver o jogo. Esperava a revista chegar. Esperava o Globo Esporte. Esperava o Fantástico. Esperava a fita VHS. Esperava até o videogame.

A espera fazia parte da construção do mito.

Pelé era uma história antes de ser uma imagem. Ayrton Senna era quase uma entidade nacional. Michael Jordan parecia um personagem impossível. Ronaldo Fenômeno surgia como alguém que fazia coisas que ninguém conseguia explicar.

Cada aparição era um acontecimento.

Hoje sabemos quase tudo sobre os atletas. Sabemos onde treinam. O que comem. Quanto dormem. O que pensam. O que vestem. O que postam.

Conhecemos tanto a pessoa que, às vezes, o personagem desaparece.

Talvez seja o preço da proximidade. A internet aproximou o ser humano, mas reduziu um pouco o mistério.

E existe algo curioso nisso. A aura nunca nasceu apenas do talento. Ela também nascia da distância. Do silêncio. Da imaginação.

Nós completávamos as lacunas. Criávamos, sem perceber, uma versão quase mítica daqueles que admirávamos.

Talvez seja por isso que tantas pessoas dizem que "naquela época os ídolos eram diferentes".

Talvez não fossem.

Talvez nós é que só víssemos os melhores momentos.

E, quando alguém só aparece nos melhores momentos, ele inevitavelmente parece maior do que a vida.

Hoje não faltam grandes atletas.

Talvez falte apenas uma coisa que a nossa geração tinha de sobra:

O privilégio de sentir saudade antes mesmo de ver o ídolo novamente.


Texto: Luan Braz

A Segunda Leitura — Onde observações se transformam em reflexões