Pausas na Corrida
O corpo precisa de movimento. Mas a alma, às vezes, precisa de pausa.
Foi assim que estas imagens nasceram — não como registros de um único dia, mas como fragmentos de vários treinos, colhidos nos intervalos em que a respiração ofegante cedia lugar à observação.
A primeira veio antes da largada.
O dia ainda não havia rompido completamente.
A silhueta do Morro do Penedo recortava o céu, enquanto as luzes da cidade se apagavam uma a uma, como quem entrega o turno à luz.
Fiquei ali, parado, sentindo o vento frio e a promessa do sol que ainda ia nascer.
Aquela paisagem me fez parar para fotografar.
Era a promessa de um grande dia.
A segunda veio depois da corrida.
A areia da Prainha sob os pés. O mar aberto à frente. A Terceira Ponte ao fundo — a mesma que, minutos antes, eu havia atravessado correndo.
Barcos silenciosos no horizonte.
Uma bandeira tremulando.
O corpo cansado, mas a mente limpa.
Não havia pressa para ir embora.
A corrida tinha acabado, mas a sensação de estar vivo continuava.
Em outro dia, no fim da tarde, o sol se derramava atrás do Morro do Mestre Álvaro como uma substância líquida.
A luz dourada tingia os capins, criava halos, distorcia a paisagem como se o mundo estivesse se dissolvendo em calor.
Naquele dia, a ideia era treinar em ritmo.
Mas havia imagens que simplesmente não aceitavam ser ignoradas.
Parei.
O sol continuava descendo.
Depois, corri em direção àquela luz, sabendo que jamais alcançaria o sol, mas que a tentativa já era suficiente.
Na mesma semana, num intervalo entre um treino de tiro e outro, olhei para cima.
Um pequeno pássaro estava pousado sobre os fios de alta tensão, imóvel.
O céu nublado. Os tons de azul e cinza.
Tudo parecia uma aquarela.
O bairro de Mata da Serra continuava em seu ruído habitual, mas aquele pássaro parecia não se importar.
Ele apenas observava.
Como eu.
E, na noite de outro treino, quando a escuridão já começava a se adiantar, uma flor branca me chamou atenção.
Eu me lembrei de tê-la visto ser plantada.
Depois, crescer.
Até se tornar aquela flor bonita, em destaque ao lado da escadaria da praça.
Jasmim.
Pétalas imaculadas contrastando com o fundo escuro.
O perfume chegou antes que eu a visse — o olfato, às vezes, mais rápido que a visão.
Parei.
A corrida poderia esperar.
Algumas coisas merecem que a gente pare.
São apenas fragmentos.
Não há uma linha reta que os una.
Talvez nem precise haver.
Porque talvez essa seja uma das verdades sobre correr — e sobre viver: o que importa nem sempre está no percurso contínuo, nem na distância percorrida, nem no ritmo marcado pelo relógio.
Às vezes, está justamente naquilo que interrompe o caminho.
No instante em que a gente para.
Olha.
Respira.
E percebe que o mundo ainda está cheio de coisas que valem a pena serem vistas.
Fotografia e texto: Luan Braz
A Segunda Leitura — Onde observações se transformam em reflexões.
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