O Homem Moderno está perdido?

 




Há algumas semanas, publiquei um artigo que gerou conversas interessantes por aqui. O título era:
"O sexto sentido feminino é químico?" — uma reflexão sobre como a intuição, a percepção e a conexão emocional femininas têm, sim, uma base biológica, mas também uma construção social poderosa.

Os comentários vieram. As mensagens também. Muitas mulheres se sentiram vistas. Alguns homens, porém, me perguntaram:

E o lado masculino? O que ele tem a dizer sobre isso?

A pergunta ficou.

Não porque eu não tivesse uma resposta, mas porque a resposta não cabia naquele artigo. O texto sobre o sexto sentido feminino era sobre elas. Este, sobre o lado masculino, é sobre nós.

E, para ser sincero, falar sobre nós — homens — não é tão simples quanto parece.

Não porque não haja o que dizer. Mas porque muitas vezes fomos ensinados a não dizer. A não sentir. A não demonstrar. A não chorar. A não admitir que há algo dentro da gente que não se encaixa na imagem de "homem forte, provedor, resolvido" que a cultura nos vendeu.

Mas há uma camada mais profunda nessa conversa. Uma que vai além da vulnerabilidade ou do silêncio emocional. Uma que toca na própria essência do que significa ser homem hoje.

A tese que quero explorar aqui é esta: o homem moderno perdeu características fundamentais que definiam a masculinidade em gerações passadas — e essa perda gerou uma crise de identidade que se reflete em números, comportamentos e no vazio que muitos homens carregam sem saber nomear.

Não se trata de nostalgia. Trata-se de constatação.

E o que os dados mostram é alarmante.


O que os números revelam

Vamos começar pelos números. Eles não mentem.

Suicídio

Entre 2013 e 2023, o Brasil registrou 144.566 óbitos por suicídio. Desses, 79% eram homens — uma proporção que se repete há décadas, mas que raramente é discutida com a urgência que merece.

No Rio Grande do Sul, a realidade é ainda mais dura: 80% dos suicídios são de homens, com taxas crescentes conforme avançam na idade. A Organização Pan-Americana da Saúde aponta que o suicídio masculino está fortemente associado ao uso de álcool, outras substâncias e homicídio — um padrão diferente do feminino, que costuma estar mais ligado à desigualdade educacional.

Homens se matam em números muito superiores aos das mulheres. E ainda assim, o assunto é tratado como exceção.

Depressão, ansiedade e solidão

Estudos mostram que homens tendem a ter menos amizades profundas, menor rede de apoio emocional e maior dificuldade de verbalizar sofrimento. Muitos resistem a admitir que se sentem sozinhos — e recorrem ao isolamento ou a mecanismos compensatórios.

Um estudo qualitativo brasileiro revelou que homens têm dificuldade em pedir ajuda e exteriorizar vulnerabilidade. Muitos substituem a terapia por conversas informais com amigos ou livros de autoajuda.

Em um serviço público de psicologia na Paraíba, os principais motivos de busca por atendimento entre homens foram ansiedade (44,27%) e conflitos familiares ou interpessoais (24,81%).

O estigma ainda é uma barreira poderosa. A masculinidade tóxica, a inibição emocional e a falta de conscientização mantêm muitos homens longe do cuidado que precisam.

A ausência do pai

Entre 2016 e 2025, mais de 1,4 milhão de crianças nasceram no Brasil sem o nome do pai no registro civil. Só nos quatro primeiros meses de 2025, mais de 65 mil crianças (6,3% dos nascimentos) foram registradas apenas com o nome da mãe.

Segundo o IBGE, das 75,3 milhões de residências no Brasil, quase 15% (11,3 milhões) são chefiadas por mães solo.

A ausência do pai não é apenas um dado estatístico. É um vazio estrutural — e um sintoma de algo maior.


O que foi perdido

Os números contam uma parte da história. A outra parte está naquilo que deixou de ser transmitido de pai para filho, de geração para geração.

Houve um tempo em que a masculinidade era ensinada — não por meio de discursos, mas por meio de ações observáveis. Construir algo. Sustentar alguém. Proteger os seus. Assumir responsabilidades. Esses eram os pilares de uma identidade que não precisava ser questionada porque era vivida.

Robert Bly, em João de Ferro, descreveu com precisão esse fenômeno: o homem moderno cresceu sem modelos. Sem rituais de passagem. Sem a presença de um pai que o iniciasse na vida adulta. Bly chamou isso de "pai ausente" — não apenas fisicamente, mas emocionalmente.

James Hollis, em A Passagem do Meio, fala sobre a crise da meia-idade como um momento em que o homem se vê diante do vazio da própria identidade — quando percebe que as máscaras que usou a vida inteira não cabem mais.

Brett McKay, fundador do The Art of Manliness, argumenta que a arte da masculinidade não precisa ser reinventada — apenas redescoberta. Pais deixaram de transmitir aos filhos habilidades e virtudes tradicionalmente masculinas nos últimos 50 anos. O resultado é uma geração de homens que não sabem o que significa ser homem, porque nunca aprenderam.

A crise da masculinidade, como descreve a literatura acadêmica, é resultado da maior participação das mulheres no mercado de trabalho, da redefinição do papel de pai e da ausência de um modelo identitário hegemônico de referência.

Em outras palavras: o homem moderno foi deslocado de seu papel tradicional — mas ninguém lhe deu um novo mapa.


O que a ciência diz





Um estudo internacional com 118.593 homens de Brasil, EUA, Israel, Finlândia e Dinamarca, conduzido pela European Society of Human Reproduction and Embryology (ESHRE), revelou algo impressionante: os níveis médios de testosterona caíram cerca de 54% em quase 50 anos — uma redução superior a 1% ao ano, com aceleração a partir dos anos 2000.

O próprio pesquisador principal, Prof. Hagai Levine, estima que obesidade e síndrome metabólica expliquem entre um quarto e metade dessa queda. O restante segue em investigação — mas suspeita-se de fatores ambientais como disruptores endócrinos (plásticos, cosméticos, produtos de limpeza) e até mudanças climáticas.

A queda de testosterona não afeta apenas o corpo. Afeta o comportamento.

Revisões recentes mostram que a relação clássica "testosterona = agressividade" é simplista. Estudos mais recentes indicam que o hormônio reforça comportamentos pré-existentes em vez de criá-los — e que pode até induzir comportamento pró-social e generoso, associado à busca por status e reconhecimento.

Os homens de hoje têm menos testosterona do que os homens de 50 anos atrás. E isso não é apenas um dado de laboratório. É uma mudança na química do que significa ser homem.


O equilíbrio possível

Mas esta não é uma história apenas de perda. Há homens — e organizações — que encontraram um caminho de equilíbrio.

O Instituto PDH (Papo de Homem), com quase duas décadas de atuação no Brasil, é um exemplo. Seu cofundador, Guilherme Nascimento Valadares, defende publicamente que vulnerabilidade e pedir ajuda "não tornam ninguém menos homem".

Brené Brown, pesquisadora amplamente citada no debate sobre masculinidade saudável, resumiu o argumento central: a capacidade de reconhecer emoções está relacionada à flexibilidade psicológica, à adaptação diante de adversidades e à construção de relações mais saudáveis.

Em outras palavras: sensibilidade e força não são opostos.

A questão não é se o homem deve ser forte ou vulnerável. É quando, como e onde cada uma dessas dimensões deve se manifestar. O homem que entende esse equilíbrio está em destaque — não porque se encaixa em um molde antigo, mas porque construiu um novo, mais consciente e mais sólido.


Segunda Leitura

Voltemos à pergunta inicial.

O homem moderno perdeu o que o homem de antes tinha?

Sim. Mas não se trata de nostalgia. Trata-se de constatação.

O homem moderno perdeu referências. Perdeu rituais de passagem. Perdeu a transmissão direta do que significa ser homem. Perdeu, em muitos casos, a presença de um pai que o ensinasse a caminhar — não apenas a sobreviver.

Perdeu também, como mostram os dados, parte da própria química. A testosterona que definia gerações anteriores diminuiu de forma acelerada. O corpo mudou. O comportamento mudou. E a sociedade, que antes tinha um papel claro para o homem, agora parece não saber mais o que fazer com ele.

Mas a perda também é uma oportunidade.

Porque o homem que reconhece essa perda — e decide preencher o vazio com consciência — está em vantagem. Ele não repete o passado. Ele não imita o que viu. Ele constrói.

A segunda leitura, então, é esta:

Não se trata de voltar a ser o homem de antigamente. Trata-se de descobrir o que significa ser homem hoje — com força, com vulnerabilidade, com propósito — e sem pedir desculpas por isso.

O homem moderno pode ser mais fraco, como dizem os dados. Ou pode ser mais forte, como diz a história de quem encontrou seu próprio caminho.

A escolha, como sempre, é de cada um.


Texto: Luan Braz

A Segunda Leitura — Onde observações se transformam em reflexões