O Pão lá que é bom
Esta é a primeira de uma serie de crônicas pessoais que pretendo compartilhar por aqui. São registros de pequenos momentos do cotidiano - nada grandioso, apenas o que a vida costuma esconder nos detalhes.
Hoje era para ter sido um dia em que eu buscaria ajuda.
Um pequeno defeito na iluminação da cozinha tinha produzido um diagnóstico aparentemente simples: trocar o bocal e o plafon. Nada que parecesse exigir grande conhecimento, não fosse um detalhe comum em casas antigas. Os fios não estavam identificados com clareza, e descobrir qual era o neutro transformava uma tarefa doméstica simples em algo um pouco mais dramático.
Um multímetro resolveria tudo em poucos minutos.
O problema era não haver um multímetro em casa.
Pensei então em pedir ajuda a um amigo. Daqueles que a vida, com o tempo, transforma em irmão. Mas ali aconteceu a primeira virada daquele sábado: antes que eu pudesse pedir alguma coisa, percebi que quem precisava de ajuda era ele.
Era algo simples para mim. Pequeno, talvez. Mas com impacto significativo para ele.
Saí dali com a iluminação da cozinha ainda por resolver, mas com uma sensação boa de que alguma coisa mais importante já havia sido iluminada.
Mais tarde, surgiu a necessidade de ir ao supermercado.
A simples ideia de entrar em um supermercado num sábado de manhã já exigia alguma preparação emocional. A certeza das filas, dos corredores cheios, dos carrinhos atravessados e da demora tornava a decisão pouco convidativa. Mas aquele parecia ser um dia de viradas, e dias assim raramente pedem nossa opinião.
Logo que cheguei, fui estacionar a bicicleta. Perto dali, uma senhora tentava acomodar muitas compras em outra bicicleta. Quando colocou o peso sobre ela, a bicicleta tombou e quase a levou junto.
Consegui segurá-la antes da queda.
Foi apenas um reflexo. Alguns segundos. Mas talvez tenha sido o suficiente para evitar um machucado, uma compra espalhada pelo chão ou um susto maior. Ela me agradeceu com aquela gratidão imediata de quem percebe que, por acaso, havia alguém no lugar certo.
Entrei no supermercado.
Pelos corredores, encontrei Rodrigo, um velho amigo dos tempos do ensino médio. Conversamos pouco — o tipo de conversa que cabe entre uma compra e outra, com a família por perto e a vida acontecendo ao redor. Mas foi bom vê-lo bem. Saudável, tranquilo, acompanhado da família.
Depois fui para a fila dos frios.
A senha estava distante. Havia muita gente esperando. Perto de mim estava uma senhora baixinha, talvez com pouco mais de um metro e meio, cabelo levemente cacheado e preso, roupa simples e uma pequena sacola de papel de uma loja de roupas. Ela não carregava praticamente nada, além daquela sacolinha e de uma ansiedade que parecia ocupar todo o espaço ao redor.
Dizia que tinha chegado cedo. Reclamava da demora. Contava que geralmente comprava suas coisas em Vitória. Tinha um sotaque agradável do interior de Minas Gerais e um jeito espontâneo de conversar, como se já nos conhecêssemos havia algum tempo.
Em determinado momento, falou:
— O pão lá que é bom.
A frase apareceu no meio da conversa e ficou.
Pouco depois, o telefone dela tocou. Do outro lado da linha, alguém perguntou se ela levaria pão de forma. Ela respondeu que não, que preferia o pão de Vitória. O pão de lá.
Enquanto explicava as qualidades do pão, a senha dela foi chamada.
Ela não ouviu.
Quando percebeu, atravessou as pessoas de forma apressada, levantando o papel da senha acima da cabeça.
— É a minha senha! É a minha senha!
Chegou ao balcão já colocando o papel dentro da caixinha destinada às senhas chamadas, como se aquele gesto pudesse impedir qualquer contestação.
Ninguém se irritou. As pessoas riram. Mas não era um riso de deboche. Era um riso de reconhecimento, quase de carinho. Havia alguma coisa nela que desarmava qualquer impaciência. Seu desespero era sincero, seu jeito era carismático, e todos pareciam compreender que aquela senhora apenas precisava garantir sua vez para poder voltar a pensar no pão de Vitória.
Continuei minhas compras.
Já quase saindo, encontrei Joelma e o marido. Joelma é uma velha conhecida minha e da minha irmã. Conheceu meu filho ainda pequeno, numa época em que algumas características dele já chamavam sua atenção — anos depois, muitas daquelas observações ganhariam outro significado diante do diagnóstico de autismo.
Foi um reencontro cheio de afeto. Nos abraçamos com força. Ela e o esposo mandaram mensagens carinhosas para meu filho e para Regina.
Saí do supermercado pensando em tudo o que havia acontecido dentro de uma manhã que, até então, parecia destinada apenas a filas e compras.
Mas o dia ainda não tinha terminado suas viradas.
Quando cheguei ao bairro, ainda carregando as sacolas, encontrei meu vizinho. Ele já passou dos setenta anos e havia feito um cateterismo não fazia muito tempo. Estava diante de uma botija cheia de gás que precisava ser levada até o segundo andar. Subir escadas com aquele peso não parecia uma boa escolha. E, como eu era quem passava naquele momento, fui recrutado.
Deixei as sacolas e peguei a botija.
Enquanto eu subia, ele seguia à frente abrindo caminho, animado, como quem conduz uma tropa para o ataque. Dava instruções, afastava os obstáculos e anunciava cada degrau como se estivéssemos participando de uma operação importante.
Talvez estivéssemos.
Quando terminamos, ele fez questão de me mostrar suas plantas. Havia flores, vasos, cultivos diversos e até algumas plantas hidropônicas. Sua esposa preparava o almoço com uma dedicação tranquila, dessas que só existem depois de muitos anos dividindo a mesma casa, os mesmos hábitos e os mesmos silêncios. Eles estão juntos há décadas.
Antes que eu fosse embora, ele ainda quis me mostrar o terraço, um andar acima.
Subimos.
Lá estavam alguns halteres, pesos e cordas. Objetos que pareciam pertencer a outra fase da vida. Em determinado momento, ele olhou para um dos halteres.
Não disse nada.
Mas havia alguma coisa em sua expressão. Ele olhava para aquele peso como quem olha para um velho amigo. Talvez se lembrasse de quem havia sido. Talvez ainda reconhecesse ali uma parte de quem continuava sendo. O corpo já não respondia da mesma maneira, mas a disposição ainda permanecia — prova disso era ter me levado até o terraço depois de subir dois andares, supervisionar o transporte de uma botija e apresentar cada planta da casa.
Despedi-me e fui para casa.
A iluminação da cozinha continuava esperando por um multímetro. Mas, ao final daquela manhã, isso parecia pouco importante.
O dia havia começado com a expectativa de pedir ajuda. Terminou depois de eu ajudar um amigo, impedir a queda de uma senhora, carregar uma botija e atravessar uma sequência de encontros que me devolveram pessoas, memórias, histórias e afetos.
Bastou que eu aceitasse o ritmo daquele sábado.
Texto: Luan Braz
A Segunda Leitura — Onde observações se transformam em reflexões