Mãos Abertas


 Ela se inclinou em direção às flores como quem se aproxima de uma descoberta.

Para uma criança, talvez não fosse apenas mais uma planta no caminho. As flores eram vivas, coloridas, diferentes de tudo o que existia ao redor. Não havia motivo para passar depressa. Era preciso chegar mais perto, observar, sentir o perfume e tocar com cuidado.

Mas ela percebeu.

E parou.

A cidade continuava acontecendo. Havia o chão de pedras, as casas, os carros, as pessoas seguindo seus caminhos e todos os sons que a fotografia não conseguiu guardar. Talvez outras pessoas já tivessem passado por aquelas flores naquela manhã sem percebê-las.

Talvez seja isso que a imagem tenha registrado: o momento em que a doce Sophia interrompe o caminho porque alguma coisa pequena conseguiu chamar sua atenção.

As crianças ainda possuem uma capacidade que os adultos vão perdendo aos poucos. Elas se interessam por coisas que não parecem importantes. Uma flor diferente, uma formiga carregando uma folha, uma pedra com formato estranho, uma nuvem que lembra algum animal.

Para elas, o mundo ainda não se transformou completamente em cenário.

Tudo pode esconder uma novidade.

Os adultos olham para uma planta e reconhecem apenas uma planta. A criança talvez encontre cores, formas, cheiros, insetos e perguntas. Quer saber como a flor nasceu, por que possui aquela cor, se o perfume muda durante o dia ou se alguma abelha já passou por ali.

Não porque precise de todas as respostas. A curiosidade infantil não existe apenas para resolver mistérios. Muitas vezes, ela nasce do simples prazer de descobrir que alguma coisa existe.

A fotografia não consegue mostrar tudo o que havia naquele instante. Ela não registra o perfume. Não reproduz os sons da rua. Não informa o que havia acontecido antes nem o que aconteceu depois. Também não revela o que passou pela cabeça daquela menina quando ela viu as flores.

A imagem guarda apenas uma pequena parte.

Mas essa parte diz muito.

O rosto quase desaparece entre folhas e pétalas. Não existe preocupação em aparecer para a câmera. Ela não parece posar para ser fotografada. Está ocupada demais vivendo o encontro.

A mão aberta sob as flores é um dos detalhes mais bonitos da cena.

Ela não arranca.
Não aperta.
Não tenta levar.

Apenas segura com cuidado, como se quisesse ajudar a flor a permanecer onde estava enquanto sentia seu perfume.

Talvez as crianças compreendam naturalmente algo que os adultos costumam esquecer: gostar de uma coisa não significa que precisamos possuí-la, e nem tudo o que achamos bonito precisa ser levado para casa — ou precisa significar alguma coisa além de si mesmo.

A flor pode continuar no galho. O passarinho pode continuar voando. A concha pode permanecer na areia. Algumas coisas podem ser admiradas e depois deixadas exatamente onde foram encontradas.

Isso não torna o encontro menos importante. Talvez o torne ainda mais bonito.

Vivemos cercados por pessoas preocupadas com o próximo compromisso, tentando transformar até o descanso em alguma coisa útil. Mas uma criança pode se aproximar de uma flor sem exigir que ela ensine nada.

A flor não precisa representar esperança, força ou recomeço. Não precisa se transformar em lição. Basta ser bonita, cheirosa e diferente o suficiente para merecer alguns segundos de atenção.

Talvez a primeira leitura da imagem seja somente esta: uma menina sentindo o perfume de uma flor.

A segunda começa quando percebemos como ela precisou se inclinar para viver aquele momento.

A flor estava perto, mas não perto o bastante. Foi necessário diminuir a distância. Talvez existam coisas que só possam ser descobertas assim.

De longe, ela enxergou a cor. De perto, encontrou o perfume.
De longe, era apenas uma planta. De perto, tornou-se uma experiência.

As crianças parecem saber que conhecer o mundo exige aproximação. Por isso tocam, cheiram, perguntam, experimentam e observam de ângulos que muitas vezes pareceriam estranhos para um adulto.

Elas ainda não aprenderam a fingir que já sabem.

A pequena Sophia parou porque as flores estavam ali.

E, para quem ainda consegue enxergar o mundo com olhos de criança, isso já é motivo suficiente.


Fotografia e texto: Luan Braz

A Segunda Leitura — Onde observações se transformam em reflexões.